quarta-feira, junho 27, 2007

Dormindo no lixo.

"E no meio da noite acordei.
E no meio do dia dormi.
E no meio de você fiquei.
E no meio de tudo, deixei."


Hoje tive vontade de dormir e não acordar. Não eu não queria morrer. Queria ficar dormindo. Sonhando. E ficar lá. Esperar por algo que nem eu sei o que é. Estou cansado disso tudo. Dessa vida de ir pra lá e pra cá. De me sentir que nasci cedo demais. Que a vida não me reserva nada. Fui esquecido. Mas fazer o que? Além de acender a chama da raiva, que se espalha pelas pernas, e que vira chutes no ar e nas coitadas das latinhas vazias no chão... Porque as pessoas são tão porcas?
Outro dia vi uma garotinha jogando uma garrafa de dois litros - a tal da pet de refrigerante - numa boca de lobo - o tal de bueiro de esgoto. Será que não passa pela cabeça da mãe dessa criança que vai voltar? - A pet vai voltar minha senhora! Queira ou não queira, na próxima enchente vai estar lá, na sua frente, na sua cara, boiando, entre o microonda e a mesa de cozinha de mogno, mais o armários de três peças, ambos na décima oitava prestação - faltam seis.
O povo não entende é porco mesmo. E quando digo isso me refiro a qualquer classe, não importa se é A ou Z.
Tem pessoa que vai ao parque com seu tênis caríssimo, de triplo amortecimento duplo. Um short que dá pra comprar três calças da que eu estou usando agora. Uma camisa que absorve o suor, o calor, o coco do pombo... Seu óculo missão impossível, que faz a pessoa pensar que é um agente secreto. Seu relógio que diz além das horas, o batimento cardíaco dele, das pessoas em volta dele, sem tem alguém com um relógio igual ao dele, o ritmo da caminhada que ele vem desenvolvendo nos últimos três meses, quantos litros de água ele perdeu e tem que beber pra repor, quantas calorias ele vai poder comer até o fim da noite, a previsão do tempo nos próximos dias, acesso a internet para pesquisas, GPS, e tudo sincronizado ao mp3 player, que vai selecionando as músicas conforme o momento. E ele ainda pensa em trocar por um melhor. Enfim. E o protótipo de homem biônico, vai acompanhado do seu cão - Wellington Borges III - que não é nenhuma realeza, e que não pensa porque é um animal. Quando quer fazer sua merda - Wellington - faz em qualquer lugar que dá vontade e o infeliz do dono deixa! Deixa para eu pisar!
Da próxima vez que eu ver um cachorro fazer as necessidades na rua na presença do dono e o infeliz deixar o monte, eu vou recolher com um saquinho - sempre ando com um saquinho agora - e espero ele entrar no carro.
- Senhor! Senhor! Se cachorro deixou isso lá atrás! - E dou na mão dele!
No cinema depois de uma sessão. No estádio depois de um jogo. Num teatro depois de uma peça. Na estrada durante a decida. Na praia no verão. No vale durante a escalada. Num motel depois de uma transa. As pessoas são porcas. Não tem jeito. Até o lixo se voltar contra eles. Até ele escorregar numa latinha, bater as costas, quebrar e virar tetraplégico. Nunca mais vai soltar nada mais por ai, em qualquer canto. É seu fica com ele. Porco.

Ta bom acordei mal-humorado. Vou dormir. Sem fazer sujeira. Quem sabe quando acordar entro pra uma ONG.

segunda-feira, junho 25, 2007

Pedaços

"Uma moeda, um anel, um momento.
Uma carta, um chaveiro, uma lembraça.
Uma caneta, um caderno, um poema."


Acordo. Tento levantar da cama. Mas estou naquele momento onde minha mente e meus olhos são os únicos que acordaram. O resto do corpo ainda está esperando receber o impulso para acordar. E eu espero. E nesse milésimo de segundo de tempo em que tudo isso está para acontecer, tantas outras coisas podem acontecer.
Olho para todo meu quarto procurando adivinhar se acordei cedo ou tarde demais. Vejo que me quarto esta pouco iluminado. Até porque só entra a luz do sol nele, totalmente, bem depois do meio dia. Ainda é de manha. Meu olho acordado percorre o quarto, e paro em uma fotografia, onde estou rindo, ainda criança, ainda banguela, e um lampejo de lembranças me faz lembrar desse dia, reflito em rir dessa lembrança, e percebo as histórias que tem dentro do meu quarto.
Uma miniatura de fusca no alto da estante me faz lembra da minha inocência, do meu tio, de graxa. Um livro que ganhei e nunca li, mas guardei para lembra desse dia engraçado, da minha mãe e de um amor distante. Um pôster de um filme antigo que assisti pelo menos dez vezes no cinema, só porque eu gostei muito, e queria que todos meus amigos assistissem também, nunca mais vi esse filme novamente, e nem tenho mais vontade - minha época de companheirismo, de loucuras, de desafios.
Vejo uma caixinha de charutos e sei o que tem lá dentro. Sei que tinha até esquecido desse momento, dessa história. Percebo que tinha prometido jogar tudo que tinha dentro dela. Esqueci. Ainda bem. Tem certos momentos que tem que ser lembrado. Mesmo que não seja bom.E continuo procurando cada pedaço de história que tem nesse quarto.
Uma bolinha de gude, um avião de papel, um taco de madeira, uma bola murcha, um cobertor pra fora, preso na porta do armário. Um pote de plástico. Um quadro a guache. Um quadro de avisos repleto de lembranças, que da até tontura com a violência com o que elas voltam.
De repente vejo uma sombra estranha na parede, refletida pela pouca luz do dia que vai amanhecendo. E provavelmente só iria conseguir ver nesse momento do dia em particular. E quem sabe, somente nessa época do ano. Procuro a origem dessa sombra. Aonde esta. Cadê? Será? Não! Ali! O que é aquilo? Por trás de uma caixa vejo a silhueta de um bicho de pelúcia envolto de plástico para protegê-lo da poeira. E uma lagrima sai do meu olho, um aperto no coração, um calafrio na espinha, um arrepio pelo braço... Será uma câimbra? Filha da puta e todos os palavrões possíveis saem da minha boca. Todo meu corpo acorda em apenas meio segundo. Respiro, relaxo e espero. Vai passar! Vai passar! Passando! Passou. Ainda dói! Filha da puta. Preciso de exercícios. Preciso levantar.
Levanto vou até o banheiro, minha bexiga acordou xingando precisando de atenção. Já estou atrasado. Saio de casa com tanta presa que esqueço outra vez da silhueta, e quem sabe quando irei relembrar dela novamente. Daqui uns anos talvez. E se não tiver outra câimbra maldita, irei lembrar de jogar esse pedaço da minha vida no lixo.

domingo, maio 13, 2007

Simples

“Se mais uma vez fiquei na cama.
E mais uma vez ela não veio.
O que eu a de fazer?
Um dia ela dá o prazer de me alegrar?”


Simples. Essa é a palavra que procuro ultimamente e me incomoda.
Simples. Gostaria que as coisas fosse definidas todas assim.
Que o dia a dia fosse simples. O trabalho fosse simples. O amor fosse simples.
Que as respostas para aquelas duvidas, fossem simples. Que a vida inteira fosse simples.
Mas não é. Acho que não pode ser. Tem pessoas que podem vir-me dizer que seria “monótono”, mas e se eu gostasse que fosse assim?
Queria simplesmente sair sem ter que me preocupar voltar.
Ou voltar sem ter que me impor ter que sair.
Simples como o canto do pássaro de manha, meu trabalho poderia ser o mesmo, algo repetitivo todo santo dia, mais que eu fosse feliz. Simples.
E o amor. Porque não achar um, namorar, casar, paixão, caixas de bombom, flores, serenatas, sexo, cobertor, abraço, sorriso, carinho, mordida, silencio, assunto, beijo... Simples assim, sem complicação. Simples.
E porque estamos vivos, vivemos todo nossa vida pra no fim morrermos. E se vamos morrer porque o medo? Se formos acabou, as pessoas que tiverem aqui que se virem com o resto, e acabou não estou nem ai. Mas pode ser simples assim?
Porque viver um sistema que é complicado, te estressa, te devora, sem visão nenhuma de perspectiva boa.
Acho engraçado quando me pergunta: “Como você se vê daqui dez anos?” Eu não consigo ver o mundo daqui a dez anos. Você a dez anos atrás conseguia ver tudo que temos hoje? Há dez anos nem MP3 existia, e hoje domina o mundo. A dez anos não se falava em digital, e olha o mundo. Há dez anos não se falava em blog (olha eu aqui). Só sei que eu poderia responder assim: “Não sou a mãe Dina, e duvido que ela saiba”.
Quero viver cada dia. Cada dia por vez. Será que posso? Simples assim?
Enfim. Simples é a palavra da vez. Que me tira o sono. Como posso simplesmente dormir pensando que tudo não é simplesmente como eu quero.
E não me venha dizer que então faça o que quer. Como se isso já soasse como simples de se fazer!Boa noite.