segunda-feira, junho 25, 2007

Pedaços

"Uma moeda, um anel, um momento.
Uma carta, um chaveiro, uma lembraça.
Uma caneta, um caderno, um poema."


Acordo. Tento levantar da cama. Mas estou naquele momento onde minha mente e meus olhos são os únicos que acordaram. O resto do corpo ainda está esperando receber o impulso para acordar. E eu espero. E nesse milésimo de segundo de tempo em que tudo isso está para acontecer, tantas outras coisas podem acontecer.
Olho para todo meu quarto procurando adivinhar se acordei cedo ou tarde demais. Vejo que me quarto esta pouco iluminado. Até porque só entra a luz do sol nele, totalmente, bem depois do meio dia. Ainda é de manha. Meu olho acordado percorre o quarto, e paro em uma fotografia, onde estou rindo, ainda criança, ainda banguela, e um lampejo de lembranças me faz lembrar desse dia, reflito em rir dessa lembrança, e percebo as histórias que tem dentro do meu quarto.
Uma miniatura de fusca no alto da estante me faz lembra da minha inocência, do meu tio, de graxa. Um livro que ganhei e nunca li, mas guardei para lembra desse dia engraçado, da minha mãe e de um amor distante. Um pôster de um filme antigo que assisti pelo menos dez vezes no cinema, só porque eu gostei muito, e queria que todos meus amigos assistissem também, nunca mais vi esse filme novamente, e nem tenho mais vontade - minha época de companheirismo, de loucuras, de desafios.
Vejo uma caixinha de charutos e sei o que tem lá dentro. Sei que tinha até esquecido desse momento, dessa história. Percebo que tinha prometido jogar tudo que tinha dentro dela. Esqueci. Ainda bem. Tem certos momentos que tem que ser lembrado. Mesmo que não seja bom.E continuo procurando cada pedaço de história que tem nesse quarto.
Uma bolinha de gude, um avião de papel, um taco de madeira, uma bola murcha, um cobertor pra fora, preso na porta do armário. Um pote de plástico. Um quadro a guache. Um quadro de avisos repleto de lembranças, que da até tontura com a violência com o que elas voltam.
De repente vejo uma sombra estranha na parede, refletida pela pouca luz do dia que vai amanhecendo. E provavelmente só iria conseguir ver nesse momento do dia em particular. E quem sabe, somente nessa época do ano. Procuro a origem dessa sombra. Aonde esta. Cadê? Será? Não! Ali! O que é aquilo? Por trás de uma caixa vejo a silhueta de um bicho de pelúcia envolto de plástico para protegê-lo da poeira. E uma lagrima sai do meu olho, um aperto no coração, um calafrio na espinha, um arrepio pelo braço... Será uma câimbra? Filha da puta e todos os palavrões possíveis saem da minha boca. Todo meu corpo acorda em apenas meio segundo. Respiro, relaxo e espero. Vai passar! Vai passar! Passando! Passou. Ainda dói! Filha da puta. Preciso de exercícios. Preciso levantar.
Levanto vou até o banheiro, minha bexiga acordou xingando precisando de atenção. Já estou atrasado. Saio de casa com tanta presa que esqueço outra vez da silhueta, e quem sabe quando irei relembrar dela novamente. Daqui uns anos talvez. E se não tiver outra câimbra maldita, irei lembrar de jogar esse pedaço da minha vida no lixo.

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